Lente de contato já vem com colírio para glaucoma

Uma equipe de farmacêuticos brasileiros está desenvolvendo um dispositivo oftalmológico capaz de facilitar o combate ao glaucoma, mal que afeta o nervo responsável por levar informações visuais do olho ao cérebro.

Após três anos de pesquisa, o Centro de Química e Meio Ambiente do Ipen (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares) já consegue fabricar lentes de contato que liberam timolol, composto presente em diversos colírios indicados para o tratamento dessa doença ocular.

Com isso, o medicamento acaba sendo depositado sobre o olho dia após dia e em pequenas doses. Fabricados a partir de silicone, os dispositivos conseguiriam manter a difusão do colírio de forma ininterrupta por até 30 dias.

De acordo com o coordenador do projeto, o farmacêutico e bioquímico José Roberto Rogero, o produto facilitaria a vida dos idosos que têm glaucoma. Eles têm mais dificuldade em pingar colírios sozinhos, por exemplo, desperdiçando "grandes quantidades de remédios nem sempre baratos".

Além disso, argumenta Rogero, o paciente idoso pode acabar esquecendo a hora de pingar o colírio, risco que é eliminado com a lente.

MUITA PRESSÃO

O olho é uma estrutura preenchida, em parte, por um líquido chamado humor aquoso. O glaucoma surge quando um indivíduo continua produzindo o humor aquoso, mas encontra dificuldades para escoá-lo. O resultado é o aumento da pressão sobre o nervo óptico, com a gradativa perda da visão.

O timolol retarda as atividades do chamado processo ciliar, conjunto de células responsáveis pela fabricação desse líquido.

Ivan Maynart, professor de oftalmologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), explica que o efeito do glaucoma "ocorre lentamente, da periferia das imagens em direção ao centro". Sem tratamento, a cegueira total vem em 15 ou 20 anos.

Dados de uma pesquisa feita na UFPR (Universidade Federal do Paraná) indicam que, entre indivíduos com mais de 80 anos, a incidência da doença atinge a marca de 6,5%, diz Maynart.

José Rogero afirma que as lentes de contato com colírio já estão prontas para passar por testes em humanos e sofrer adaptações industriais. Contudo, desde que chegou a esse estágio, o projeto perdeu parte de sua verba, vinda de uma empresa.

"Para liberar o uso em humanos, a Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] demoraria de cinco a dez anos", estima Rogero. Nesse período, "qualquer farmacêutica multinacional conseguiria importar um produto semelhante, e a ideia acabaria ficando ultrapassada".

Para manter o trabalho nessa linha de pesquisa, Rogero está recorrendo agora ao setor veterinário.

No momento, ele tenta adaptar as lentes de contato, substituindo os colírios que poderiam auxiliar no tratamento das pessoas com glaucoma por medicamentos como anti-inflamatórios e antibióticos já recomendados para cães e gatos com problemas de visão.